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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Reação x Antecipação: mais uma pequena resenha sobre Arnis Kali (e cia.)


Baseado no artigo Reaction vs. Anticipation de Brian Johns. Que começa falando sobre o desafio que todo estudante de Kali, e de artes marciais em geral, tem para entender a diferença entre “antecipar” e “reagir”. E considera comum tentar se antecipar os movimentos do oponente, frequentemente com resultados ruins.

fonte: http://bamboospiritmartialarts.com



Para deixar mais claro, nesse caso,”antecipar” pode ser entendido o ato de observar como acreditamos que o adversário vai agir, a tentativa de prever os movimentos dele de forma objetiva e racional, agindo antes dele. Enquanto reação seria algo mais intuitivo, baseado na leitura da movimentação do adversário e na reação, algo mais reflexo e fluído, sem muito raciocínio consciente.

Se pensarmos no movimento corporal, nas manobras que praticamos, como um linguagem é possível observar que, com a experiência, o estudante vai aprendendo a “ler” essa linguagem. Porém, é preciso não apenas a prática para conseguir decodificar a linguagem corporal, também é preciso manter um certo “silêncio” mental, a calma necessária para perceber os sinais demonstrados pelo oponente e deixar os seus próprios reflexos reagirem de acordo. Nesse aspecto a antecipação seria algo como um exagero, uma tentativa de perceber e agir antes do oponente que, pode facilmente cair numa reação exacerbada e limitada em termos de opções e flexibilidade. Essa reação exacerbada (over-reaction) pode refletir nosso próprio preconceito sobre determinada situação e criar mais problema que solução.

Em essência, a diferença entre antecipar e reagir seria principalmente de modo de pensar: A antecipação envolve o consciente, a mente tensa, controle e a dureza; enquanto a reação seria algo relacionado à calma, mais flexível, inconsciente e fluído. Talvez seja por isso que várias artes marciais asiáticas prezem tanto a meditação, o controle das emoções, a concentração e a fluidez.

Por exemplo, se a situação for uma luta na academia: você pode estar acostumado a certos movimentos de um colega. Já se lembra das experiências anteriores, sabe como ele manobra e, de antemão, já está com toda a sua estratégia pronta. Basta que, nessa vez, ele resolva fazer algo diferente, como uma nova finta ou um simples mudança em seus ângulos para essas tentativas de antecipação simplesmente desabarem. Ao mesmo tempo, numa situação de luta já existe uma tendência natural a sermos menos flexíveis e nos ater apenas o que conhecemos. Assim, uma antecipação ao movimento adversário pode te expor muito mais do que espera. A mente fica presa ao operacional, fazendo uma “microadministração” do corpo, pensando em cada golpe ou esquiva. A antecipação te leva a reagir em exagero, o que demanda mais energia e acaba te tornando lento e previsível.

No aspecto físico, a reação exige muito mais treinamento que a antecipação. É preciso que os movimentos e golpes já estejam tão internalizados que não dependem mais de pensamento consciente, já teriam adentrado o reino dos reflexos, do instinto. Acredito que seja o que o mestre Dada descreve como memória muscular. Ao mesmo tempo se a mente consciente não precisa mais cuidar do operacional fica liberada para pensar num cenário mais amplo, na tática e estratégia. Em pensar em como se está lutando ou mesmo se vale a pena lutar. Essa última questão é especialmente importante numa situação de defesa pessoal, na rua.

Se a mente está mais livre e reativa seria possível usar melhor os sentidos e o corpo. Os exercícios de Balintawak apresentados pelo guro Tales no Sama-Sama de 2015 trabalham muito com o tato para entender os movimentos do adversário, algo corroborado na apresentação do guro Alessandro, no mesmo evento, quando falava do uso das mãos como “antenas” para detectar o movimento adversário. Não se trataria de antecipar, controlar os movimentos imprevisíveis do adversário, mas de entender seus movimentos e usar as oportunidades que a situação oferecer. Reagir, nesse contexto seria algo como, desapegar de idéia de controle.

Por exemplo, no meu último exame de faixa vi isso acontecer comigo na parte da luta. Numa luta anterior eu estava tão preocupado, e afobado, em atingir o adversário primeiro que perdi por ser atingido várias vezes na mão que segurava o bastão. Caí feito um pato em praticamente todas as fintas que estava tentando antecipar. Já no meu último exame de faixa eu estava consideravelmente mais seguro e calmo. Assim, na fase da luta eu não apenas consegui evitar algumas armadilhas como também criar minhas próprias sequências de contragolpe, sem planejamento, apenas deixando a situação fluir e aproveitando oportunidades que surgiram. Em outras palavras, reagindo. Em alguns casos eu mesmo só entendi certos movimentos que fiz quando vi a filmagem.

Usando um exemplo mais amplo, o autor demonstra como a antecipação e a reação exagerada podem nos colocar em problemas na rua e as reações podem resolver. Não é apenas algo aplicado ao corpo, mas também um modo de pensar. Ele contou sobre um pequeno incidente em que buzinou para um sujeito que o fechou no trânsito e, depois de ter descido do carro, o sujeito foi atrás dele questionando se ele havia buzinado. Automaticamente ele abaixou a tensão da situação ao responder que não sabia do que o sujeito estava falando. O sujeito aceitou a resposta ou simplesmente decidiu que piorar a situação não valeria a pena e foi embora. Na visão do autor, buzinar para externar a raiva desses folgados no trânsito foi uma antecipação raivosa que gerou um problema e a resposta foi uma reação calma e firme que desarmou uma provável briga de rua antes que ela começasse. Como ele disse, às vezes uma reação limitada (under-reaction) é melhor que uma reação exagerada (over-reaction). Como vi uma vez no SHTF blog: A primeira regra de sobrevivência é se manter longe de problemas.

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