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sábado, 12 de julho de 2014

Entrevista com o Guro Jerome Teague


1) Olá Guro Jerome, Obrigado por nos conceder essa entrevista! Bem, vamos começar falando sobre você. Conte-nos um pouco da sua história.
Olá, obrigado pelo convite. O prazer é meu em poder compartilhar um pouco da minha experiência com você e seus leitores. Bem, eu tenho 33 anos e sou ex-membro do Exército dos EUA, inclusive sou um veterano da guerra do Iraque. Atualmente sou universitário. Estou cursando História e Antropologia na Universidade Estadual do Tennessee. Além disso passo boa parte do meu tempo a ensinando e promovendo as artes marciais filipinas, em particular o sistema Applied Eskrima Balintawak sob a tutela do Mestre Virgil Cavada.



2) Bem, e você pode nos falar um pouco sobre as artes marciais em sua vida?
Eu comecei a treinar nas artes marciais na minha adolescência. Estudei um estilo coreano chamado Tang Soo Do com o Mestre William Courtwright em minha cidade natal, Scranton, Pennsylvannia. Eu treinei por cerca de 3 anos e gostei muito. Era uma escola muito tradicional e nós nos concentramos bastante em formas e em combates. Mais ou menos aos 15 anos de idade eu parei de treinar e fiquei sem praticar qualquer outra modalidade até ingressar no Exército em 2001.
Já no serviço militar fui apresentado ao Army Combatives [técnicas de combate desarmado do exército], que consiste basicamente de princípios do Jiujitsu brasileiro com algumas aplicações de kickboxing. Após minha saída do serviço militar em 2005, passei a estudar a arte tradicional japonesa de Budo Taijutsu sob tutela do meu bom amigo Shidoshi Randall Engle. Enquanto ainda treinava com Shidoshi Engle, tive o prazer de conhecer mais um dos instrutores que viria a me apresentar as artes marciais filipinas em um contexto global. Professor Aaron Lee Smith vivia em Jacksonville na Flórida, mas se mudou para o Tennesee e logo começou a trabalhar com o nosso grupo. Ele era instrutor de Tang Soo Do e de Jiu-jitsu japonês, mas também ensinava Modern Arnis em conjunto com os estilos coreanos e japoneses.
Alguns tempo depois encontrei também outro instrutor, o Guro Keith Groves do sistema Villabrille Largusa Kali. Guro Keith e eu nos tornamos amigos próximos e parceiros de treino. Nós treinamos juntos regularmente, e hoje nossos grupos se reúnem de tempos em tempos para treinos coletivos.




3) Mas como foi que você ouviu falar sobre a Arte Marcial Filipina? Qual foi o momento crucial para você descobrir essa modalidade?
Eu descobri a arte marcial filipina da mesma maneira que muitas pessoas nos dias atuais descobrem: através do cinema.
Dois filmes me marcaram bastante: Identidade Bourne e Caçado. Ambos usavam FMA para a sua coreografia e acabei sendo fisgado. Infelizmente eu nunca tive tempo ou oportunidade de buscar mais conhecimento sobre o assunto enquanto era militar - embora o velho programa do Army Combatives incluísse alguns conceitos em seus últimos módulos de treino. Na época eu fiquei bem interessado pelo material, mas olhando agora eu vejo o quão simplificado ele era em comparação com o nível de sofisticação de um treino de FMA completo. Seria algo como comparar a pintura com dedo de uma criança com aquela da capela Sistina.
Mas como eu já coloquei antes, meu treinamento em FMA de fato começou com o professor Asron Lee Smith. Ele foi um dos que abriram meus olhos para a diversidade e a maravilha que as Artes Filipinas são. Desde então o FMA se tornou meu foco primário.




4) Sobre o Applied Eskrima: como você conheceu o mestre Cavada? Como foi o começo do seu treino com ele?
Surpreendentemente, eu conheci o mestre Cavada através do YouTube. Eu assisti a um vídeo dele com o seu professor/parceiro de treino GM Crispulo Atillo, fazendo uma demonstração da arte em Cebu, Filipinas. Eu fiquei impressionado com a velocidade e a fluidez na curta distância. Eu deixei alguns comentários e alguns dias depois o mestre Cavada me respondeu, agradecendo por minhas palavras assim como cumprimentando meu conhecimento técnico sobre FMA. Ele então me perguntou sobre o meu treinamento atual em FMA. Se bem me recordo, nessa época eu já estava treinando há 3 anos. Ele sugeriu que eu dessa uma vista d’olhos na série de DVDs que o GM Atillio havia recentemente produzido. Eu fiz isso e comecei a integrar alguns elementos dele em meu treinamento.
Cerca de um ano e meio depois, mestre V se separou de seu professor após 30 anos de treinamento no Sistema Atillo, que ele começou em 1976 com o SGM Vicente Atillo, pai do GM Crispulo Atillo e fundador do sistema. Foi então que o mestre V me contatou me informando de seu rompimento e perguntando como estava meu treinamento. Nós então tivemos uma longa conversa por telefone onde ele me convidou para ser seu representante em minha região.
Nos meses seguintes ele me atualizou em detalhes de seu novo currículo, e eu passei a focar totalmente nele. Conversamos bastante nessa época. Ele se mostrou sempre acessível a sanar minhas dúvidas, algumas vezes por telefone e até por Skype! Sempre próximo para poder verificar o meu progresso.
Foi bem difícil esse começo, onde tive de treinar longe das mãos de meu tutor, mas busquei sanar isso treinando mais intensamente do que nunca! Algumas vezes de treinava 6 ou 7 dias por semana. Assim com meu trabalho honesto, apoio e dedicação dos meus alunos, a generosidade do mestre Cavada e um currículo bem estruturado eu consegui me desenvolver muito rapidamente.
Uma vez que eu estava um grupo sólido de estudantes, passei a trazer o mestre Cavada para seminários em Nashville, assim como passei a visita-lo para treinar em sua casa em Los Angeles. Esse ano em particular foi bastante gratificante para o meu crescimento pessoal, pois tive a oportunidade de passar um bom tempo treinando com ele em Los Angeles e nas Filipinas, onde passamos três semanas intensas de treinamento - um ensaio para um acampamento bianual do Applied Eskrima. Além disso, fui convidado para ajudá-lo em um seminário na Espanha. Em novembro desse ano eu o trarei novamente para Nashville.
Bem, foi assim que tudo começou para mim. Tem sido um caminho árduo e intenso, mas muito recompensador. Se eu tivesse que fazer tudo novamente, faria sem hesitar.




5) Você também é graduado em Budo Taijutsu, Kung Fu Shaolin e outras modalidades de artes marciais: é possível integrar esses estilos com o FMA?
Com certeza! Eu penso que você não pode deixar de integrar outros estilos no treino de FMA. Em minha opinião, todas as artes márcias são apenas aplicações de geometria, anatomia e física. Um soco é soco e um chute é um chute, independente do estilo ou local de origem. Entretanto, muito do meu treinamento em artes chinesas e japonesas é focado na manipulação de juntas, chaves e projeções. As mesmas técnicas existem em todas as artes marciais, pois o ser humano possui sempre a mesma estrutura básica independente de questões étnicas ou raciais. A única diferença entre os estilos de artes marciais está no método de abordar essas técnicas e treinar. Eu prefiro as Artes Marciais Filipinas, pois elas são diretas e econômicas nos movimentos. Acho que nesse ponto, o estilo filipino passa a frente dos demais.




6) Você já foi militar, então você poderia nos falar um pouco da importância do treinamento marcial para o soldado?
Eu acredito que o treinamento marcial é vital para todos os militares. Infelizmente grande parte do tempo e recursos das unidades militares é gasto no treinamento das habilidades básicas, mais imediatas, que um soldado deve ter, como o treinamento de tiro. Ainda assim eu vejo que o treinamento em artes marciais é muito benéfico para manter a disciplina e ajustar o senso de combate da tropa, independente da aplicação direta em combate.
O Exército dos EUA tem aproveitado essa ideia, usando o treinamento de artes marciais para promover a coesão da unidade e aumentar a moral do soldado. Combatentes militares modernos treinam estilos como kick boxing e jiu-jitsu brasileiro, que possuem uma base esportiva, para alcançar esse objetivo. Este tipo de treinamento ajuda a promover um "espírito de luta", e também serve para expor novos soldados, alguns dos quais nunca foram em uma luta, para a experiência da agressão homem a homem.
De qualquer maneira eu penso que muito que os militares treinam hoje serve mais para um ringue do que para o campo de batalha. Comparado com os militares da segunda Guerra Mundial e do Vietnam, cujo treinamento era mais próximo do pensamento chinês, japoneses e filipino que é o de matar e mutilar o oponente. Os militares atuais fazem mais um jogo de cavalheiros. Mas tal como o cenário da batalha muda, as táticas e o treinamento também. Uma das últimas coisas que um soldado poderia esperar ao desembarcar no Afeganistão ou no Iraque seria um combate mano a mano. Assim os militares continuam a treinar para situações especificas. Eu pessoalmente prefiro as velhas formas, pouco extravagantes, sujas, rápidas e eficientes.




7) Você é o co-fundador do projeto FMAid - um projeto que levantou fundos para Filipinas após a passagem do Tufão Haiyan. Como essa ideia nasceu?
Antes do terremoto de outubro de 2013 e do tufão de novembro do mesmo ano, alguns dos amigos do meu instrutor e eu tínhamos uma ideia para realizar um evento. Discutimos sobre a ideia durante alguns meses, sem chegar a nenhuma conclusão. Quando o tufão atingiu o país, percebemos a extrema necessidade de levar ajuda as Filipinas. Decidimos organizar rapidamente o seminário, que vinha sido constantemente adiado. Além do seminário, também iniciamos uma página do Facebook projetada para servir como um centro para a promoção de outros esforços de caridade na comunidade FMA.




8) Qual a sua opinião sobre o FMA nos Estados Unidos hoje?
Eu estou muito satisfeito em ver o FMA ficar cada vez mais em exposição aqui nos Estados Unidos. Entretanto eu prevejo algumas áreas de problemas no futuro. O crescimento rápido nem sempre é o melhor. Atualmente o FMA nos Estados Unidos não é visto como uma forma completa e independente de defesa – frequentemente ele é considerado um treinamento suplementar ou uma especialização. Não se deve permitir que uma arte evolua e seja reconhecida assim, pois ela nunca será tratada com o respeito que merece. Eu já vi isso acontecer algumas vezes, com pessoas que dizem que estudam e treinam FMA, mas que são incapazes de dizer quais estilos ou quais os componentes do seu treinamento. Quando eu peço por uma demonstração, é comum não ver nada além do que alguns movimentos aleatórios com um ou dois bastões batendo entre si.




9) Qual a sua opinião sobre FMA e defesa pessoal?
Em minha opinião, o FMA é uma das melhores formas de treinamento de defesa pessoal. O treinamento é direcionado a defesa com e contra armas desde o primeiro momento, o que é muito mais prático e realista para o cenário das ruas. Eu digo aos meus estudantes que tenho 33 anos, cumpro as leis, não me envolvo em confusão nem fico perturbando as pessoas. Ou seja, não dou razão para ninguém arranjar confusão comigo. Se por alguma razão eu me envolver em alguma situação em que eu precise usar o meu treinamento, com certeza será em algum cenário envolvendo armas, como um roubo ou invasão de domicílio. Assim, as artes marciais filipinas são minha escolha primária de treino, sem que eu precise pensar duas vezes para isso.




10) Obrigado pela sua entrevista! Você poderia dedicar algumas palavras finais aos nossos leitores?
A melhor mensagem que eu posso deixar para os praticantes de FMA é que eles devem treinar duro, de maneira segura e pensando apenas na realidade. Penso que a principal causa para o FMA ainda não ter tido o seu “boom” entre o grande público, está na percepção das pessoas de que se trata de algum “suplementar” ou uma “especialização” das artes marciais. Também tem o fato de que há um grande material de FMA disponível ao público que mostra um material chamativo e extravagante contra oponentes que não oferecem resistência. Isso pode impressionar algumas pessoas, mas o público especializado percebe a diferença. Pode ser divertido treinar e praticar esse tipo de técnica, mas é preciso ter uma raiz forte nos princípios de defesa, ataque, movimentação contra um adversário que ofereça algum tipo de resistência. Assim como alguns instrutores e praticante, nós procuramos mostrar o quão efetivo e completo o sistema filipino é para as aplicações do dia a dia e não apenas para os cenários fantásticos dos filmes de Hollywood. De bastões, espadas e facas até mãos, pés e projeções, nós temos de tudo em nosso treinamento!



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