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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

As "desconhecidas" Artes Marciais Filipinas - Parte II

por Prof. Moyses Perillo


Muito se tem escrito, especialmente na Internet, em textos extensos ou breves, aprofundados ou superficiais, fidedignos ou especulativos, sobre o surgimento das técnicas e sistemas de combate oriundos das Filipinas e região. O que é consenso entre as narrativas históricas é que as origens das admiráveis técnicas que hoje herdamos remontam a longínquas épocas. Nasceram no seio de uma organização social complexa, composta por um grande número de reinos autônomos espalhados pelas ilhas, com os quais se depararam os espanhóis durante as Grandes Navegações, notadamente no período em que a Europa empreendia a busca por uma rota de circunavegação. Fala-se muito, em textos de origem incerta e questionável, sobre “tribos” do arquipélago, o que induz a pensar que as sociedades daquelas ilhas eram “indígenas”, primitivas quase ao nível de sociedades pré-históricas, semelhantes às encontradas nas Américas. Nada disso. As semelhanças daqueles povos com nossos indígenas ou outras coletividades ancestrais param nas aparências externas, talvez impostas pelo meio ambiente local, talvez pelos costumes e tradições dos mesmos. Na verdade, como bem descreve e explica Tales de Azevedo, se tratavam as sociedades filipinas do aludido período de reinos organizados onde se exercitava intenso e hábil comércio interno e externo. Tales de Azevedo é um dos raros autores fidedignos que escreve e estuda o tema no Brasil. Formado pelo Mestre Herbert “Dada” Inocalla, é professor de Arnis Maharlika e autor da obra Guia de Estudo para o Arnis Maharlika.

Naquele tempo, como atesta a História, as novas terras encontradas pelos navegadores eram logo reivindicadas e “anexadas”, mesmo a contragosto dos nativos, aos domínios dos reis de Espanha ou Portugal. Essa “conquista”, cujos métodos variavam da simples entrada e ocupação do território, quando lidavam com povos realmente primitivos, passando pela oferta de “vantagens” e “acordos” aos governantes locais, chegava, em muitos casos, ao uso maciço da força militar, além de outros elementos de persuasão, para dominar as populações locais e submetê-las ao jugo e exploração típicos das colônias lusitanas e espanholas. Com as Filipinas, os métodos não foram diferentes, às vezes com a adesão voluntária de líderes atraídos pelos “benefícios” oferecidos; outras vezes pela promessa de apoio militar aos chefes locais, para o combate aos inimigos destes; em outros momentos, os conquistadores convenciam pela ameaça apoiada sobre o terror, inspirado pelo poder naval e pelas bombardas.

Todavia, em suas primeiras incursões, os espanhóis não contavam com a determinação incomum e com uma surpreendente resistência por parte dos habitantes de algumas localidades daquelas ilhas, os quais, experientes nas contendas internas, já contavam com extenso rol de técnicas de combate. Eles se mostravam não apenas bravos, mas donos de uma verdadeira cultura guerreira, marcada por alta perseverança e tenacidade nos enfrentamentos, além de impressionante capacidade de adaptação ao inimigo europeu, que chegava encouraçado e protegido com pesada armadura corporal. Tudo isso era inesperado e desconhecido pelos invasores, que acabaram rechaçados naqueles primeiros momentos da conquista do arquipélago. O ponto mais notável dos conflitos foi a derrota das tropas espanholas, culminando com a morte em combate do comandante invasor, o famoso navegador português Fernão de Magalhães. Magalhães, algum tempo antes, fora o descobridor da primeira rota de circunavegação, o “Caminho marítimo para as Índias”, que possibilitou grande desenvolvimento comercial ao mundo da época. Foram batidos os invasores na Batalha de Mactan, liderada pelo soberano local Lapu-Lapu, homenageado até hoje como o grande herói dos povos filipinos. Isso não impediu que retornassem os espanhóis, acompanhados de muito ouro e de seu formidável poderio militar, logrando êxito na tomada do arquipélago e estabelecendo domínio por considerável período.

Junto com a invasão, sempre vem a opressão, testemunha a História. Assim os filipinos se viram despojados de seus valores, dentre estes os culturais, padecendo por isto o risco de verem perdida sua identidade natural. Todas as manifestações, costumes e conhecimentos, que às vistas dos invasores pudessem figurar como “ameaças” ou consideradas afrontosas à sua supremacia, foram paulatinamente suprimidas... Os nativos, astutos e bastante sábios nesse sentido, trataram de cultivar, preservar e transmitir seu conhecimento guerreiro de maneira dissimulada, dentre outros expedientes incorporando-os aos, por assim dizer, aspectos “folclóricos” de sua própria cultura. Assim, as danças típicas, muitas vezes exibidas a título de entretenimento para os colonizadores e as inscrições “artísticas”, elaboradas com ideogramas do alfabeto alibata, serviam como repositórios e meios de transmissão das técnicas de combate refinadas ao longo dos séculos pela ancestralidade. Além dessa transmissão oculta, os nativos estudavam as técnicas de luta dos próprios espanhóis, especialmente a esgrima, entre estes muito desenvolvida e sofisticada, incorporando-as à sua própria tecnologia guerreira. Vale lembrar que nas Filipinas se fala, até hoje, uma enorme variedade de idiomas, o que impunha outra forte barreira aos espanhóis e facilitava aos nativos na transmissão de conhecimentos.

É ponto pacífico entendermos que, grosso modo, essa interação hostil entre povos nativos e invasores marcou a gênese do que hoje conhecemos por Artes Marciais Filipinas, internacionalmente chamadas Filipino Martial Arts - FMA, Arnis, Kali, Eskrima... Para quem desejar se aprofundar no tema, partindo do interessantíssimo contexto histórico, fica a sugestão de leitura do livro do Guro Tales, acima mencionado.

Até a próxima postagem.

Mabuhay!

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