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terça-feira, 9 de abril de 2013

Reagir ou não reagir: eis a questão!



por Guro Maurício Viegas Pinto*

Os casos recentes de homicídio, estupro e agressões a mulheres que ocorreram no Distrito Federal trouxeram à tona, mais uma vez, a questão da segurança pessoal.

Trabalho profissionalmente na área de segurança há pelo menos 15 anos, e sempre observo a forma como o interesse das pessoas em “aprender a se defender” cresce repentinamente quando esses casos de violência entram na pauta da mídia. Nada mais natural...

Quando isso acontece, de todos os lados aparecem “especialistas em segurança” com soluções mágicas para proteger os cidadãos. Em certas ocasiões a própria polícia - pressionada pela mídia - chega a apresentar algumas respostas, digamos assim... infelizes, para não sermos indelicados na escolha da palavra (refiro-me aqui, especificamente, ao recente “auto de alerta” implantado no Distrito Federal).

E embora os textos sagrados profetizem que chegará o dia em que “o lobo apascentará no campo com o cordeiro”, a verdade nua e crua que observamos mostra que a violência, lamentavelmente, não se extirpará de uma hora para outra em nossa sociedade.

Diante desse cenário, no mínimo desolador, algumas pessoas se fazem a seguinte pergunta: “O que eu devo fazer se isso acontecer comigo?”.  Ou ainda, indo direto à questão: “O que é mais correto nesta situação, reagir ou não reagir?

Bem, se chegamos a nos fazer essa pergunta, eu penso que já demos um passo decisivo em direção ao que há de mais importante no contexto da segurança pessoal: a percepção do risco!

Digo isso porque muitas pessoas, pelos mais variados motivos, sequer ousam se imaginar como vítimas de uma situação de violência. Algumas, penso eu, porque acreditam que isso seja uma heresia, e sempre respondem mais ou menos assim: “Credo! Eu não! Desgraça atrai desgraça... Deus é mais!”. Outras pessoas se recusam a se imaginar nessas situações porque se sentem intocáveis em suas fortalezas pessoais, devidamente guarnecidas por seus seguranças armados e seus carros blindados.

Contudo, tenho um recado a passar para as pessoas deste segundo grupo, aquelas que se sentem “intocáveis” (as do primeiro grupo costumam ser muito refratárias à argumentação, e nada do que eu diga vai fazê-las mudar de opinião). Observando o perfil das vítimas de violência nos inúmeros casos que foram veiculados nos últimos 15 anos, percebi algo interessante... Não importa qual seja a nossa classe social, ou o saldo de nossa conta bancária... Acreditem-me: qualquer um de nós pode vir a se tornar mais um alvo dos delinqüentes que se proliferam pelos guetos e palácios da cidade!

Dessa forma, meus amigos e minhas amigas, por estranho que possa parecer, eu lhes recomendo: “coloquem-se no lugar das pessoas que se tornaram vítimas da criminalidade. Visualizem o que vocês poderiam fazer para evitar que isso acontecesse. E ainda: visualizem o que vocês poderiam fazer para sobreviver a essa situação, caso não fosse possível evitar que ela viesse a ocorrer”.

Eu sei... Esse exercício não é simples. Pelo contrário, é bastante difícil e, em alguns casos, chega a ser doloroso mesmo. Mas ele é fundamental para que possamos desenvolver algo que, por falta de uma expressão mais adequada, vou chamar de uma mentalidade de sobrevivência.

Vejam bem. Prestem bastante atenção! Eu não estou incentivando ninguém a reagir diante de uma situação de violência. O que estou dizendo, de uma forma bem clara, é o seguinte: estejam preparados!

É curioso como as pessoas se comportam de uma forma estranha em relação à violência... A maioria das pessoas que conheço não viaja sem antes realizar um planejamento que contemple a duração de sua viagem, os locais de parada e os restaurantes onde fará suas refeições. Todos os bons palestrantes e conferencistas preparam-se antecipadamente para as suas apresentações. Fazem testes, visitam o local, atualizam os seus exemplos... Contudo, quando o assunto é violência, pouquíssimas são as pessoas que querem pensar sobre o assunto. Se preparar para ela então... Nem pensar! Mas a verdade é que um encontro violento pode ser extremamente traumático. Pessoas não perdem apenas bens patrimoniais ao se depararem com criminosos. Elas perdem a sua integridade física e psicológica. Elas perdem a inocência. Elas perdem a própria vida.

Para mim, parece ser extremamente incoerente planejar uma viagem de férias ou uma apresentação no trabalho e não me preparar para enfrentar da melhor maneira possível uma situação que possa tirar a minha própria vida... E para vocês? O que lhes parece?

Se vocês, caros leitores e leitoras, discordarem do que acabei de dizer, podem interromper essa leitura por aqui. Nada do que vem a seguir lhes interessará. Caso contrário, se acreditam que há fundamento neste argumento, sigam adiante...

Quando ouvimos narrativas sobre casos de violência, sempre observamos a velha e interminável polêmica sobre qual seria a atitude mais correta a ser tomada pela vítima: reagir ou não reagir.

Obviamente, reagir diante de uma situação de violência sempre será arriscado. Não é isso o que se discute aqui. A própria palavra re-agir já se refere a algo que se faz em desvantagem, como resposta a uma situação inesperada. Ou seja, se foi preciso reagir (responder) é porque fomos surpreendidos, e já estamos em inferioridade em relação ao agressor.

O único problema dessa análise, que tenta comparar as conseqüências entre reagir e não reagir, é que ela nos conduz à falsa conclusão de que se reagir é extremamente perigoso (como de fato é), a opção que lhe é contrária (não reagir) é extremamente segura... Ops!

O estudo de casos reais de violência nos revela algo surpreendente: em diversas situações onde a vítima não reagiu (de acordo com o depoimento posterior do próprio criminoso) ela também foi agredida, violentada, estuprada e até mesmo assassinada!

Logo, nós nos deparamos com a seguinte situação: de fato, reagir é extremamente perigoso. O problema é que (embora quase ninguém comente isso), não reagir também não assegura que a vítima irá sair ilesa de uma abordagem criminosa...

De forma concreta, se uma pessoa se depara com um assaltante e não faz nada, ela será assaltada. Se ela se depara com um estuprador e não faz nada, ela será estuprada. Se ela se depara com um assassino e não faz nada, ela será assassinada. Simples assim...

Por isso eu insisto neste ponto: não reagir é tão perigoso quanto reagir! 

Diante desse dilema, o que devemos fazer?

Para responder a essa pergunta, precisaremos destacar três pontos fundamentais:

O primeiro ponto (e também o mais importante de todos) já foi dito algumas linhas atrás... Temos que desenvolver um preparo mental antecipado, através de exercícios imaginários – preferencialmente baseados em casos reais – que nos permitam criar um condicionamento voltado para situações de violência.

O segundo ponto, que em certa medida decorre do primeiro, consiste em garantir que não iremos “travar” quando estivermos diante de uma situação de violência.

De um modo geral, quando somos pegos despreparados, quando somos surpreendidos, é natural que as nossas ações não sejam as mais adequadas para a situação... Quem de nós já não ficou mudo ou paralisado, quando foi surpreendido com um pedido para palestrar sobre um assunto ou demonstrar alguma habilidade de forma repentina. Em certos casos nós sabíamos que seríamos capazes de falar ou fazer aquilo que nos foi solicitado, desde que tivéssemos tido tempo de nos preparar adequadamente.

E é exatamente isso o que ocorre nas situações de violência. Como a maioria das pessoas jamais sequer pensou sobre o assunto (algumas, aliás, chegam a demonstrar aversão por essa idéia), quando elas acontecem, as pessoas ficam absolutamente paralisadas ou então respondem de uma forma completamente irracional.

Obviamente, qualquer um de nós está sujeito a reações inadequadas, como as descritas acima, ao se deparar com uma situação de extrema violência. Contudo, a experiência nos mostra que as pessoas despreparadas (digo, psicologicamente despreparadas) apresentam uma probabilidade absurdamente maior de se comportarem assim.

O preparo mental antecipado nos ajuda a ter o autocontrole necessário para reagir da maneira correta, caso seja preciso fazê-lo.

O terceiro ponto consiste em saber que os crimes violentos (como o estupro, por exemplo), exigem que o criminoso esteja efetivamente no comando, tanto da vítima quanto do cenário. Costuma-se dizer que para que um crime violento possa se materializar, o criminoso precisa dispor de tempo, isolamento e controle.

Pois bem, o que estamos querendo dizer é o seguinte: embora a abordagem criminosa quase sempre ocorra em um local movimentado, onde as pessoas encontram-se com grande quantidade de dinheiro (ainda que não seja em espécie), como cheques ou cartões, e dispostas a gastar: como ocorre em shoppings, restaurantes, cinemas e supermercados, apenas para citar os exemplos mais comuns; o crime violento em si geralmente é praticado em um local ermo, afastado, longe dos olhares de pessoas estranhas: como estacionamentos desertos e terrenos baldios.

Algum de nós, por acaso, já ouviu falar de um estupro em frente a um shopping movimentado ou no corredor de uma galeria comercial?

Isso não ocorre porque a dinâmica dos crimes violentos desdobra-se, via de regra, entre dois cenários distintos: a cena do crime nº 1 e a cena do crime nº 2.

Por cena do crime nº 1 entende-se o local onde ocorre a abordagem criminosa (geralmente um ambiente movimentado, onde as pessoas carregam dinheiro e objetos de valor). Já por cena do crime nº 2, entende-se o local onde se materializa o crime violento, ou seja, uma região completamente afastada onde, por mais alto que a vítima grite, ninguém aparecerá em seu socorro.

Logo, é imprescindível – para que possamos adotar uma conduta adequada diante de situações de violência – que tenhamos a capacidade instantânea de perceber quando o delinqüente pretende migrar da cena do crime nº 1 para a cena do crime nº 2, pois é lá, como sabemos, o local onde ocorre a maioria dos crimes violentos.

Portanto, se percebermos que ele (o criminoso) tem essa intenção, devemos interromper a sua ação imediatamente, de maneira firme e decidida.

Sim, eu sei... Isso é perigoso. Concordo plenamente!

Mas seguir com ele, sendo bem sincero com vocês, poderá ser muito pior...

Certamente corremos o risco de sermos alvejados ou feridos de qualquer outra maneira ao nos recusarmos veementemente a seguir com o criminoso. Mas, pensem comigo... Se um delinqüente nos efetua um disparo de arma de fogo em frente a um local movimentado, onde ele corre o risco de ser identificado e preso, o que ele não nos faria se estivéssemos a sós, em um local isolado?

E ainda há uma outra questão. Se efetivamente formos feridos, onde temos a maior chance de sermos socorridos? Em frente a um local movimentado no centro da cidade, ou em um terreno baldio, em um ponto afastado, onde ninguém aparecerá em nosso socorro?

Em síntese, é isso o que extraímos do terceiro ponto, se for preciso reagir, essa reação deverá ser efetuada na chamada cena do crime nº 1, pois, depois disso, as nossas chances de sobrevivência reduzirão drasticamente.

Meus amigos e minhas amigas, após refletirmos sobre esses três pontos, estamos em condição de apresentar uma resposta à inquietante pergunta que fizemos anteriormente:

    

“Como devemos proceder se nos depararmos com uma situação de violência?”

Com base em tudo o que foi exposto, podemos afiançar que se o marginal pretende apenas levar bens patrimoniais (o carro, a carteira, o celular) a reação não compensa!

Por mais que nos julguemos preparados, sempre existe o risco de que sejamos feridos (aliás, gravemente feridos), e nada – absolutamente nada nesse mundo – vale o preço de perdermos as nossas vidas, ou, o que é ainda pior, de vermos uma pessoa amada sendo ferida, por qualquer coisa que seja.

Contudo, se ficar claro que a intenção do marginal não é apenas a de nos subtrair bens materiais, se for evidente que ele quer algo mais, e – principalmente – se notarmos que ele pretende nos levar para o que chamamos nesse texto de cena do crime nº 2, devemos sim reagir imediatamente!

Talvez você, caro leitor ou leitora, sinta-se incapaz de reagir, mesmo diante dessa situação. Talvez você pense que não tenha a menor possibilidade de êxito ao se confrontar com um criminoso profissional.

Bem, se você pensa dessa forma, preste bastante atenção ao que irei lhe dizer a seguir...

Reagir não significa, em hipótese alguma, trocar socos e rolar no chão com o marginal. Se isso acontecer, você provavelmente perderá!

Reagir significa simplesmente correr, gritar e abandonar para trás o seu carro, a sua carteira e qualquer outra coisa que esteja com ele. Afaste-se dele, o mais rápido que puder!

Se ele já estiver no carro com você, reagir significa simplesmente avançar violentamente com o seu carro contra um posto da polícia ou uma viatura que passe por você.

Na ausência desses, reagir significa apenas arremessar o seu carro contra um poste em um cruzamento bem movimentado, de forma a atrair a atenção de um grande número de pessoas.

Faça o que for preciso, mas impeça que ele o leve para o local onde ocorrem os crimes violentos.

Lembre-se: você provavelmente será ferido quando isso acontecer...

Esteja pronto para isso!



* O autor atua como profissional de segurança desde 1997. É graduado em Direito e especialista em Inteligência Estratégica e Lakan Guro Dalawa do Arnis Maharlika.

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