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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Breve História das Filipinas


texto escrito por Tales Vasconcellos



A República das Filipinas é um país do continente asiático, formado por mais de 7000 ilhas. Com uma grande população, as Filipinas estão no ranking dos 20 países mais populosos do mundo. O inglês hoje é a língua comum, porém diversos dialetos como o Filipino, Tagalog, Cebuano entre outros podem ser escutados nas suas ruas, resquícios da longa história das suas terras.

Antes do surgimento da república, aquelas terras serviram como berço e cenário de diversas civilizações. Podemos traçar a história de povos que chegaram por volta de 500 a.C. às ilhas, porém é a partir do século X que sultanatos, rajanatos e outros reinos polvilhavam pelas ilhas. Impérios de origem hindu, outros muçulmanos e mais tantos pagãos.

Para o “mundo ocidental”, a história das filipinas começa no século XVI, quando o português Fernando de Magalhães, a serviço da coroa espanhola, realizou a sua viagem de circunavegação do mundo. Partindo no dia 20 de setembro de 1520, Magalhães chegou as Filipinas em março de 1520.

Antonio Pigafetta, geógrafo italiano que viajou na expedição de Magalhães, registrou todos os momentos da viagem em um diário, ao qual publicou com seu retorno a Europa. Após se encontrar com chefes e monarcas de reinos menores, Magalhães foi conduzido a corte do rei de Cebu. Diversos pactos foram feitos, principalmente após demonstrações do poderio bélico europeu, que culminaram com a conversão de toda a corte de Cebu e de reinos aliados ao cristianismo e a criação de votos de fidelidade com a Espanha.

Pigafetta escreveu em seu diário [1]:

O capitão disse ao rei que entre as vantagens de tornar-se cristão estava a de vencer mais facilmente os seus inimigos. O rei respondeu que estava muito contente em converter-se, mesmo sem benefício algum. Mas salientou que lhe agradaria muito poder fazer-se respeitar por certos chefes de ilhas que não queriam submeter-se à sua autoridade.
Os reinos que existiam nas Filipinas, eram famosos no mundo antigo por suas relações com outros povos. Um dos reinos do norte, chamado Manila, havia desenvolvido um forte canal comercial com a China no século X. Assim, diferente da visão ingênua e preconceituosa que nós possamos vir a ter, os antigos habitantes das ilhas não eram tolos na arte do negociar.
É sabido porém que os monarcas de Cebu já conheciam a fama dos europeus de conquistadores. Tanto que quando Magalhães chegou a Cebu, mercadores mouros aconselharam ao rei sobre como proceder para com aqueles “portugueses” que acabavam de chegar às suas terras. Magalhães, ao descobrir isso, soube sabiamente se aproveitar da situação, aumentando sua fama ante o rei, argumentando que eles não serviam a coroa portuguesa, e sim a uma outra, maior e mais poderosa, que era a coroa espanhola.

Com o auxílio dos espanhóis, o rei de Cebu passou a investir contra os reinos que lhe faziam oposição, submetendo um a um ao seu domínio. Até que estes se puseram contra a ilha de Mactán. Dividida, a ilha era comanda por dois datus, um de nome Zula e outro chamado Lapu-Lapu.

Ciente do grande poder bélico que os estrangeiros tinham, Zula se dirigiu ao monarca de Cebu. Prometendo recursos e aliança, caso os Europeus lhe auxiliassem em uma batalha contra Lapu-Lapu,.que publicamente havia registrado sua desconfiança para com os europeus e sua crença cristã.

Assim, em 27 de abril de 1521, espanhóis, cebuanos e guerreiros de Zula, partiram para uma batalha contra os guerreiros de Mactan liderados por Lapu Lapu. Podemos supor que esta tenha sido breve porém sangrenta, pois como o próprio italiano narrou em seu diário:

Os nativos perceberam que seus golpes na cabeça ou no corpo não nos atingiam por causa das nossas armaduras, porém, que as pernas estavam indefesas. E para elas concentraram suas flechas, lanças e pedras, de maneira tão intensa que não pudemos resistir. Então, nos retiramos lentamente, mas combatendo sempre. Além disto, as bombardas que levávamos nas chalupas se tornaram inúteis por causas dos arrecifes. À medida que nos retirávamos pela água, os nativos iam apanhando as lanças que já haviam atirado contra nós e voltavam a arremessá-las, fazendo isto por outras cinco ou seis vezes. Como conheciam bem nosso capitão, ele se tornou seu alvo preferido. Por duas vezes o derrubaram, mas ele se manteve firme enquanto combatíamos ao seu redor. O combate desigual durou uma hora. Um ilhéu conseguiu, em dado momento, colocar a ponta de sua lança na frente do capitão, mas este furioso, conseguiu ser mais rápido, cravando a sua lança no inimigo, onde ficou presa. Tentou então sacar a espada, mas não pôde por estar gravemente ferido no braço direito. Dando-se conta disso, um dos nativos avançou com um sabre, acertando a perna esquerda, fazendo-o cair de cara na água e arrojando-se por fim contra ele.

A morte de Magalhães e a derrota dos espanhóis, serviram para desmoronar a recém-criada, e ainda instável, aliança entre cebuanos e europeus. A expedição então retomou seu rumo, e durante duas décadas, aquele pedaço de mundo ficou longe das mãos da coroa espanhola.

Longe das mãos porém não significa que tivesse sido esquecida. Em 1543, Ruy Lopes de Villalobos visitou as ilhas. Era desejo do rei, melhor mapear aquele local, ao qual o Italiano havia descrito e que havia sido o porto final do grande Magalhaẽs. Foi nessa viagem, que o arquipélago recebeu o nome de Filipinas, em homenagem ao príncipe Felipe de Astúrias.

Foi então em 1571, que Miguel Lopez Legazpi chegou ao arquipélago. Diferente da esquadra da Magalhães, a de Legazpi vinha com um objetivo claro de através da força, dominar os reinos ali existentes e fazer a bandeira espanhola tremular sobre todas aquelas terras.

Durante os anos que se seguiram, Legazpi conseguiu trazer alguns regentes para o seu lado, ao mesmo tempo em que aniquilou a oposição. Sua única derrota foi a de não ter conseguido subordinar os reinos muçulmanos da região de Mindanao. Essa na verdade, seria uma constante durante todo o período de dominação espanhola, que seria a coexistência, ora pacífica e ora violenta, com os reinos islamizados.

Com a vitória de Legazpi, As Filipinas se tornariam território espanhol, parte do Vice Reino de Nova Espanha com sede na Cidade do México. As decisões importantes eram tomadas pelo Conselho das índias, cabendo a sua execução ao Governador Geral, chefe das tropas espanholas nas ilhas.

O antigo reino de Manila foi escolhido para sede do arquipélago, devido a sua posição geográfica, porém agora não mais como um reino e sim uma cidade. Dentre as outras funções que o Governador Geral dispunha, vale mencionar o de presidente da Real Audiência, o maior corpo judiciário local. Além disso, seu cargo lhe conferia autoridade para inclusive inferir em assuntos eclesiásticos da Igreja Católica Romana, agora única religião permitida nas ilhas.

O historiador Teodoro Agoncillo [2] descreve que o salário de um governador geral era de aproximadamente 40 mil pesos por ano, porém era muito comum que este aumentasse, devido a presentes recebidos em troca de certas decisões.

Abaixo do governador geral, existia o Alcaide, que era o governador provincial, responsável por áreas já pacificadas e os Corregedores, responsáveis por regiões ditas selvagens. Junto com o governador geral, estes cargos formavam a alta cúpula administrativa das Filipinas durante o período colonial, sendo estes exclusivos para espanhóis.

Abaixo destes, existiam os capitães municipais, responsáveis por pequenos ajuntamentos e cidades. Estes cargos podiam ser ocupados por filipinos, e mestiços chineses, que tivessem ao menos 25 anos e fossem alfabetizados.

Durante a invasão de Legazpi, muitos nobres optaram por juntar forças aos espanhóis do que a combatê-los. Seja por impossibilidade militar, ou por ver nesse ocorrido uma possibilidade para saldar antigas dívidas com oponentes, a questão é que esses nobres acabaram por se tornar os capitães municipais, o que lhes permitiam exercer novos poderes dentro da estrutura colonial então vigente.

Mesmo não estando no topo da pirâmide de poder, eles formavam uma classe que foi chamada de Principallia, e que teria grande importância ao manter as classes baixas da população condicionadas a trabalhar sob o controle europeu.

É difícil traçar um quadro geral da colonização espanhola das Filipinas. Devido a grande quantidade e diversidade populacional, esta agiu de diferentes maneiras. Em algumas regiões por exemplo, o uso da encomienda, ou seja, o trabalho coletivo para o estado ou para um chefe civil, foi aplicada com relativo sucesso. Em outras regiões, essa pratica não surtiu os mesmos efeitos.

Como ocorreu em outras regiões de colonização espanhola, a Igreja Católica esteve junto, abrindo as primeiras instituições de ensino voltadas para os filhos da principallia local. Foi em 1596, que foi fundado o Colegio de Niños na recém-criada cidade de Manila, pelos padres Jesuítas. Essa seria seguida de outras, como o Colegio Maximo de São Inácio, Colégio de São Ildefonso, Colégio de São José, entre outros. Muitos deste, durante o século XVII se tornariam universidades.

As mulheres não foram esquecidas. Também no século XVII, diversos colégios para moças, como o de Santa Potenciana e o de Santa Isabel, foram criados. Em um primeiro momento, apenas as filhas de espanhóis podiam estudar nestes, porém com os anos, a abertura para as filhas da principallia acabou por ocorrer de forma natural.

A existência desse modelo de colégio, seria duramente criticada no século XIX, pois ela servia mais para alimentar jovens mentes das classes altas em um contexto pró-espanha, do que para efetivamente levar educação e conhecimento. Se esperava assim, diminuir o abismo ideológico entre a alta classe nativa e os dominadores, enquanto as classes baixas continuavam a viver em ignorância.

Ainda que a educação jesuítica oferecida a principallia servisse para fixar a subordinação ante os Europeus, essa crença acabou por não ser forte o suficiente para sufocar uma das maiores criticas existentes durante a época colonial, que era a da taxação sem representação. Diversos impostos eram empregados pelo governo ao povo das ilhas, sem que este visse qualquer retorno, além da disposição de tropas em combatê-lo.

Trabalhos forçados, falta de acesso as esferas superiores de poder, corrupção das autoridades hispânicas, monopólio comercial, trabalhos forçados. Características da colonização espanhola que em muito desagradavam aos filipinos e que desencadearam diversas revoltas, que pontilharam o território durante o século XVIII.

O trabalho das autoridades nesses casos foi sempre bastante pontual, buscando tratar cada caso como um movimento isolado, visto que em todas essas revoltas apresentavam algumas características básicas: ser compostas por grupos pequenos e locais e sem grande expressão no território como um todo e lutando contra um determinado aspecto da colonização, e não contra os espanhóis em si.

Uma das justificativas para a pouca abrangência das revoltas era a falta de uma identidade nacional para o povo Filipino. Até então, estes se viam não como um povo único, mas como uma série de civilizações espalhadas por um arquipélago e reunidas artificialmente sob uma única administração estrangeira.

A segunda questão foi a linguagem, que durante muito tempo foi um entrave nas relações entre os Filipinos. Para se ter uma ideia, hoje as duas línguas oficiais das Filipinas são o inglês e o filipino. O inglês é a língua do estrangeiro, dos norte-americanos, que ocuparam o arquipélago durante a primeira metade do século XX. O Filipino por sua vez é uma língua artificial, planejada para funcionar como um meio termo entre os dialetos indígenas mais falados, e oficializado na segunda metade do século XX.

Foi na segunda metade do século XIX, que uma nova geração de aristocratas filipinos, educados na Europa, começaram a trazer para as ilhas uma nova visão sobre o problema da dominação e a colonização, junto com alternativas, planos e ideias para alterar essa situação. O resultado dessas mudanças resultaram no katipunan, objeto desse estudo e que iremos estudar com mais detalhes nos próximos capítulos.

Foi a partir de 1896 que a luta pela liberdade deixou de ser um plano, e tomou ares de uma guerra efetiva contra a Espanha. Planos criados em cima de um sedimentado desejo coletivo, fizeram com que essa guerra fosse ganha em 1898.

Nessa mesma época, a coroa Espanhola se encontrava em guerra com os Estados Unidos da América, pelas colônias mexicanas. Derrotada em ambos os lados do globo, a coroa espanhola se utilizou de uma artimanha; abandonar a guerra americana entregando as Filipinas (que já não mais possuía) como espólio de guerra aos vitoriosos.

Assim, nos primeiros anos do século XX os Filipinos se viram as voltas com uma nova guerra não planejada, dessa vez contra os americanos, que chegam no arquipélago visando ocupá-la. Sem planejamento e sem recursos, foi questão de poucos tempo, até os americanos declararem sua vitória, transformando as Filipinas em um protetorado.

Durante esse período, os americanos ofereceram a chance para que as Filipinas se tornassem um dos estados da federação. Tal proposta acabou rejeitada em um plebiscito. Pouco tempo depois, a segunda guerra mundial explodiu, e as Filipinas passaram a ter de lutar contra a invasão dos japoneses em seu território.

Ao fim da segunda guerra mundial, os americanos então entregaram as ilhas, e o povo Filipino finalmente pode proclamar o seu grito de liberdade, nascendo assim a República das Filipinas.

Referência Bibliográfica
[1] Pigafetta, Antonio. A primeira viagem ao redor do mundo. Porto Alegre: LP&M, 2007.
[2] Agoncellio, Teodoro A. History Of The Filipino People. Quezon, RG, 1990.


Retirado do livro:
Katipunam Maçonaria e a Revolução.

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