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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Bullying e o FMA

O termo “bullying” se encontra em voga nos dias atuais. Sinônimo de diversos tipos de agressões física, verbais e morais que uma pessoa pode vir a sofrer de uma outra pessoa ou um grupo de pessoas, esse termo acabou se popularizando no cenário das escolas, porém com o tempo sua aplicação ganhou novos ares e cenários. Sua origem está na palavra inglesa bully, que significa “valentão”.

Sofrer bullying pode estar relacionado com outras questões discriminatórias, como por exemplo o racismo. Nos dias atuais, até mesmo alguns tradicionais “trotes” de faculdade podem ser considerados bullying, pois ambos buscam submeter uma determinada pessoa a uma situação de zombaria, humilhação e por vezes de agressão.

Alvo de diversas campanhas, patrocinadas por professores, educadores e intelectuais, cada vez mais o bullying ganha espaço na mídia, que busca mostrar os malefícios causados por essas praticas nefastas, e completamente opostas aos fins de qualquer sociedade saudável.

Essa manifestação anti-bullying, fez com que o problema passasse a ser tratado como um mal real, de modo que após ser estudado por psicólogos, pedagogos e outros profissionais, ganhou limites e contornos, que permitem que se identifique quando e como está ocorrendo o bullying.

Como foi dito o termo bullying vem de bully, que por sua vez significa valentão. É muito comum que na maioria dos casos, o bullying ocorra entre duas pessoas, ou seja, um “valentão” e uma “vítima”. Essa vítima pode ser escolhida tanto ao acaso, quanto em virtude de determinadas características físicas e/ou sociais. As agressões são então feitas de maneira explícita, de modo amedrontar também aqueles que não a estejam recebendo, que se calam com medo e receio delas próprias se tornarem no futuros as próximas vítimas.

Agora você meu caro leitor, deve estar se perguntando: “ok, muito interessante esse papo sobre bullying, mas o que ele tem a ver com FMA”?

Há algum tempo atrás, circulou pela internet um vídeo, que mostrava um certo ritual em uma escola de FMA, onde os alunos permaneciam parados enquanto apanhavam e levavam tapas na cara de um instrutor - uma espécie de batismo bizarro. A justificativa para tal ato era o de relembrar tradições antigas que faziam parte do Kali/Arnis enquanto arte marcial selvagem (sic).

Qualquer praticante sério de FMA, que tenha se dedicado ao estudo das origens da sua arte, sabe que essa modalidade marcial é nova, de poucos séculos atrás. Diversos autores, como o respeitadíssimo Mark Wiley ou o pouco conhecido Agoncillo, publicaram trabalhos mostrando as suas origens em finais do século XIX.

Mesmo sem buscar origens tão remotas e sem se dedicar ao árduo estudo da história, basta que se verifique a história das escolas que hoje temos: todas encontram suas origens em poucas gerações atrás dos nossos dias atuais.

Não há no mundo nenhuma escola de FMA que tenha tradição de centenas de anos. Todas são “recentes”, tendo começado com algum mestre no início ou meio do século XX.

Dessa maneira, como é possível que, se tratando de instituições e grupos recentes, estes pratiquem rituais tão bárbaros e primitivos? Pior, como é possível que estes se justifiquem buscando um pseudo passado remoto?

As respostas são tristes, de modo que esses casos representam apenas duas situações: ignorância e má-fé.

É comum em algumas modalidades de artes marciais, que ao atingir certos níveis na hierarquia da instituição, o postulante passe por uma espécie de combate ritualizado. Esse combate poderia consistir em um único golpe aplicado pelo mestre, e que deveria ser evitado pelo aluno, ou de uma série de golpes, que deveriam ser defendidos e/ou contra-atacados de maneira oportuna O primor do ritual não era ser acertado: ao contrário, era a demonstração da alta expertise da técnica, de modo a evitar ser vitima dela, assim como também demonstrar suas habilidades frente ao mestre.

Com os tempos, homens ignorantes subverteram os valores desse tipo de tradição e passaram a utilizar tais praticas como meros pretextos para aterrorizar seus alunos. Pouco seguros de si, optaram por modificar tais cenários, de modo a evitar uma reação por parte dos agredidos.

Quando os ignorantes não agiam, vinham aqueles de má-fé, que buscavam criar uma tradição artificial, ou adaptar um costume real, mas de maneira que que contradiga o bom senso e a história e a lógica., de modo apenas a tentar se manter como o melhor do grupo. É possível encontrar associado uma dose de sadismo nesses homens, além é claro de possíveis outras perversões.

Esse sujeito que age de má-fé, para agredir, irá possivelmente dar a luz a novos ignorantes, que repetirão eternamente os bizarros rituais pelo qual passaram, alegando uma tradição milenar – do qual os pobres todos mal sabem que de milenar elas são apenas nos segundos.

A questão é: precisamos ampliar os horizontes do movimento anti-bullyng trazendo o mesmo para o cenário do FMA.

Apenas do FMA? Não, de todas as artes marciais.

É triste, que em pleno século XXI, ainda escutemos histórias de batismos de faixa violentos e desnecessários. Pior ainda, é ver em sites como o YouTube, a ignorância ser transmitida como uma espécie de troféu de “olha, vejam como eu torturei meus alunos mais do que você” ou “veja como fui mais humilhado do que fazer”.

Trazer esse debate à tona não é fácil, principalmente pelo fato de ser comum que o ignorante se sinta grato em ser agredido. A vítima se identifica com o agressor.

O caminho é longo, porém com conscientização, instrução e tempo. Com esses três pilares, poderemos transformar o FMA em uma arte marcial / atividade esportiva, cada vez mais saudável para todos.

Escrito por Tales de Azevedo

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