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terça-feira, 26 de abril de 2011

A Faceta Espiritual do Arnis Maharlika

"Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses", escrita há muitos anos, na antiga Grécia, essa frase ainda norteia o espírito daqueles que buscam a maior compreensão da vida, do mundo e do ser humano como um todo.

Autocontrole, força interior, paz de espírito, cortesia e realização pessoal. Em seu livro “Orasyon”, o datu Shishir Inocalla cita esses como sendo os grandes pilares devem guiar o verdadeiro guerreiro pelo caminho da iluminação, um destino longo, que somente pode vir a ser atingido através da concentração no objetivo correto.

Conhecer a si e a toda a criação. O grande mestre, Shri Shri Anandamurti, ensinava que boa parte da região, onde hoje temos as Filipinas, adotava o nome de Maharlika, cujo significado significava “Grande Criação”.

Refletindo sobre o significado deste nome, qual criação pode ser maior do que o próprio homem?

Nós enquanto seres humanos, apesar de possuirmos certas características físicas e biológicas que nos distinguem enquanto espécie, somos agraciados com o dom, ou o direito da individualidade. Assim, somos obrigados a trilhar sozinhos, enquanto indivíduos, caminhos que nos conduzem a uma maior compreensão de nós mesmos, do nosso eu interior.

Assim, alguns indivíduos acabam sendo levados para o caminho das artes, outros das ciências, se tornando assim grandes músicos, pintores, pesquisadores, professores... enfim, se tornam seres tornam seres de habilidade ímpar em seu ofício, ainda que tal mérito não receba o reconhecimento social que lhe é devido.

Diz o velho adágio que “conselho se fosse bom não se dava, vendia”. O caminho que leva rumo a essa expertise e compreensão é tortuoso, sinistro e muitas vezes velado. Dessa maneira, muitos acabam se indignando, e perdendo a real compreensão do que é poder vir a ser realizar com o ofício.

Dessa maneira, faz-se necessário ao ser humano que haja algo a mais que o desperte para essa maior compreensão do ser. Algo que transcenda o meramente material e profano, e mostre ao ser humano a real dimensão de sua existência.

Nos tempos primitivos, sobreviver era a palavra-chave do ser humano. Uma espécie nova no planeta, que precisava enfrentar e sobrepujar espécies mais antigas e mais bem preparadas para o confronto do que ele. O homem já nasceu no grande campo de batalha da natureza.

Foram precisos anos e mais anos, para que o confronto com os grandes animais fosse vencido – embora hoje sejam os pequenos que nos desafiem, veja, por exemplo, os alarmantes casos de Dengue em nosso país. Sem um grande inimigo, o Homo Sapiens Sapiens passou a não mais a lutar com grandes feras, e sim contra um inimigo tão forte e feroz quanto, que era o seu próprio semelhante.

Esse novo conflito trouxe não apenas o desafio físico, de não mais contar com os padrões seguidos pelas feras instintivas. O novo adversário pensava e raciocinava de maneira semelhante, além de andar, se portar e possui uma fisionomia semelhante. Todos esses fatores permitiram que uma fagulha fosse lançada na mente do homem, e que a dicotomia de vida contra a morte fosse pensada e estudada, gerando inúmeras questões que perduraram através dos tempos até a nossa geração.

Muitos séculos atrás na Índia, o clássico Mahabarata já retratava o embate moral que o príncipe Arjuna travava contra si próprio, ao precisar enfrentar seus primos e parentes no campo de batalha de Kurukshetra. O Bhagavad-Gita, narra todo o diálogo entre Arjuna, a dúvida humana, e Kishna, a divindade encarnada, símbolo do Eu superior, na qual tais questões são levantadas e discutidas, movendo novos pontos de reflexão para o leitor.

Figuras míticas permeiam o nosso imaginário, a respeito de seres que foram capazes de através do conflito, um caminho rumo a compreensão. Sejam eles os monges Shaolin na China, os Samurais no Japão ou mesmo os Templários na Europa. Todos se tornaram símbolo desse modo de vida que é o caminho do guerreiro.

Os irmãos Inocalla estiveram desde a tenra idade, familiarizados com a arte do combate. Conflitos, gangues e brigas de rua, Shishir cresceu como um garoto que tinha tudo para vir a se tornar um lutador perfeito, quando aos 12 anos, algo aconteceu em sua vida. Ele conheceu nas ruas, um velho yogi que vagava a ensinar a todos que quisessem aprender, a sua filosofia.

Tendo sido aceito como ajudante do velho monge, Shishir pôde enxergar o quão limitado, embora necessário, era ter a vida vivida apenas em torno do conflito físico, sem se preocupar com a construção de algo que pudesse vir a lhe preparar para o que viria depois da morte, o grande igualador que não poupa nada nem a ninguém.

Foi assim, ainda jovem, que o jovem Inocalla pode viajar para a Índia e, vivendo em um monastério, aprender lições que lhe serviriam para balizar o grande caminho ao estava destinado, que era o de ensinar. Pouco tempo se passou, antes que fosse seguido por seu irmão Herbert, ao qual o destino havia imposto a mesma sina, de modo que após um árduo treinamento, ambos foram recebidos acaryas.

De posse de uma nova visão de mundo, puderam os irmãos retomar seus estudos marciais com um novo foco. Tutorados como grandes mestres, como o grande professor Remy Presas, fundador do Modern Arnis, puderam os irmãos dar inicio a uma nova escola, capaz de unir o conhecimento do Bahabahavi, o conhecimento do combate, com o Sadhana, das práticas espirituais.

O conhecimento marcial, do combate, talvez seja a grande porta de entrada para todos aqueles que ingressam na escola. Para o mundano, seja mais facilmente assimilável e compreensível.

Conforme o progresso se passa, as práticas do Sadhana acabam por serem mostras e ensinadas. Esse é um desafio de muitos alunos talvez seja o de entender onde e como elas aparecem. Com o tempo, todos os praticantes percebem que essa não ocorre de forma impositiva, mas de forma gradativa, através do exemplo. Pequenas lições e instruções, que passadas em consonância perfeita com as aulas, formam toda uma gama de conhecimento que quando se toma consciência, ele já esta lá.

Esse conhecimento não é nada mítico nem sobrenatural. O conhecimento transmitido do Sadhana, assusta pela sua simplicidade e transparência, assim como sua usabilidade mesmo no mundo atual.

O espírito acadêmico que permeia nossa sociedade, exige que nomes sejam apontados e definidos. Dar nome, significa conhecer. O desconhecido não tem nome e é temido. Assim, podemos nomear, definir certos conceitos do Sadhana, em dois grandes grupos.

O primeiro grupo se chama Yama Sadhana, cujo fim consiste no ensino do Sam'yama, ou autocontrole. Yama significa cinco, pois são cinco os degraus que o estudante deve percorrer para se obter tal estado.

Ahim'sa: Não feria desnecessariamente outro ser, seja com palavras ou ações.
Satya: Trabalhar pelo bem coletivo.
Brahmacarya: Nutrir bons pensamentos, enxergando o ser supremos em toda a criação.
Asteya: Não roubar, nem de fato nem em pensamento, assim como não enganar.
Aparigraha: Utilizar de maneira apropriada os recursos, evitando o exagero e o supérfluo.

O segundo grupo se chama Niyama Sadhana, que também agrupa outros 5 degraus:

Shaoca: Manter corpo, mente e ambiente limpos, de drogas e maus pensamentos.
Santos'a: Simplicidade e auto-satisfação. Tranqüilidade.
Tapah: Sacrifício com o objetivo de auxiliar ao próximo.
Svadhyaya: Correta compreensão dos princípios da mantendo sempre a mente aberta.
Iishvara Pranidhana: manter sempre em mente um objetivo definido.

Assim, embora o Arnis Maharlika, como toda a escola, possua um período de estudos determinado, conforme nos aprofundamos em seus ensinamentos, vemos que suas bases estão pautadas em princípios altivos e magnânimos, cujo tempo de aprendizado não acaba com a conclusão do seu curso.

Dessa maneira, simples e humilde, que a escola Arnis Maharlika, busca através dos anos, instruir seus mandigrima, seus guerreiros, na nobre arte da defesa e do combate, porém sem esquecer dos baluartes para um vida feliz, correta e completa.

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